Construção civil segue em crescimento na Serra Gaúcha, mas enfrenta desafio de mão de obra, aponta presidente da Ascon

Sábado, 28 de março de 2026

Construção civil mantém ritmo de crescimento, mas enfrenta desafio de mão de obra

Ascon Vinhedos

Ao assumir a presidência da entidade, Diogo Giacomello projeta uma gestão focada em inovação, qualificação e debate sobre reforma tributária e industrialização, enquanto setor mantém protagonismo na economia regional.


A construção civil segue desempenhando um papel estratégico no desenvolvimento econômico da Serra Gaúcha, sustentando investimentos, impulsionando cadeias produtivas e respondendo diretamente às transformações urbanas e sociais da região. Em Bento Gonçalves e municípios vizinhos, o setor vive um momento de aquecimento consistente, com alta demanda tanto no segmento habitacional quanto no mercado voltado a investidores.

Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio estrutural que se intensifica com o próprio crescimento: a escassez de mão de obra.

É nesse contexto que o engenheiro civil Diogo Giacomello assume a presidência da Ascon Vinhedos para o biênio 2026-2027. Com trajetória iniciada em 2005 na empresa familiar fundada por seu pai, o novo presidente chega ao cargo após atuar como diretor financeiro na gestão anterior, experiência que considera fundamental para compreender as demandas do setor e o papel da entidade.

“A gente vem de uma gestão muito atuante, que trouxe novidades importantes para a entidade. O desafio agora é manter esse nível e, ao mesmo tempo, imprimir novas pautas, especialmente voltadas à modernização da construção civil”, afirma.

A entidade também acompanha o crescimento do setor no número de associados. Segundo Giacomello, houve uma expansão significativa na base durante a gestão anterior, movimento que segue nos primeiros meses do novo mandato.


Setor aquecido e protagonismo econômico

A construção civil é tradicionalmente considerada um termômetro da economia, e o cenário atual reforça essa percepção. Segundo Giacomello, o setor vive um momento positivo não apenas na Serra Gaúcha, mas em todo o Rio Grande do Sul, com forte movimentação de obras e investimentos.

“O mercado está aquecido. Isso a gente percebe na prática, em diferentes regiões do estado. Existe demanda, existe movimento, e isso acaba impulsionando outros setores também”, destaca.

Dois perfis de consumidores sustentam esse crescimento. De um lado, estão as famílias em busca do primeiro imóvel, impulsionadas por um histórico déficit habitacional. De outro, investidores que enxergam no mercado imobiliário uma alternativa segura em meio a um cenário econômico de incertezas.

“A gente tem uma demanda muito forte pelo primeiro imóvel, que é uma necessidade real da população. Ao mesmo tempo, o investidor também procura o setor imobiliário como uma forma de proteção e rentabilidade”, explica.

Ele acrescenta que há espaço significativo de crescimento, especialmente no atendimento ao primeiro imóvel.

Nesse contexto, a construção civil se consolida como um dos principais indicadores do ritmo econômico. “Quando a construção está aquecida, ela acaba puxando outros setores junto”, observa.


O gargalo da mão de obra

Se o crescimento é evidente, os desafios também são. A falta de mão de obra qualificada desponta como a principal preocupação do setor, impactando diretamente prazos, custos e produtividade.

“A escassez de mão de obra é hoje o maior problema da construção civil. E não é só quantidade, é qualificação também”, afirma Giacomello.

Ele explica que a construção civil historicamente absorve trabalhadores com menor nível de qualificação formal, o que torna o cenário ainda mais complexo em um momento de alta demanda.

“É um setor que muitas vezes recebe profissionais que não conseguiram se inserir em outras áreas. Isso faz com que a gente tenha um desafio duplo: falta de pessoas e falta de qualificação”, pontua.

Diante da dificuldade de contratação local, empresas já adotam estratégias para buscar trabalhadores em outras regiões do país.

“No ano passado, eu tive que buscar mão de obra no Nordeste, pagando transporte e moradia, porque não encontrávamos profissionais aqui”, relata.

Esse movimento, no entanto, evidencia outro problema: a capacidade limitada da cidade em absorver novos trabalhadores, especialmente no acesso à moradia.

“Não é só trazer as pessoas. A gente precisa ter onde elas vão morar. Hoje já existe dificuldade até para aluguel, o que mostra que o déficit habitacional também está na locação”, observa.

A situação evidencia uma relação direta entre emprego e moradia, ampliando o desafio urbano.


Industrialização como resposta

Diante desse cenário, a industrialização da construção civil surge como um dos principais caminhos para garantir produtividade e sustentabilidade ao setor.

“A construção civil ainda é muito artesanal. A gente precisa avançar para um modelo mais industrializado, que traga eficiência e reduza a necessidade de trabalhadores no canteiro de obras”, defende.

A pauta será central na gestão da Ascon, com incentivo à disseminação de novas tecnologias e sistemas construtivos.

“Não é uma mudança que acontece do dia para a noite, mas é um caminho sem volta. Precisamos começar agora”, afirma.


Dinâmica de mercado e planejamento urbano

O setor também lida com ciclos naturais entre oferta e demanda, além de desafios urbanos importantes.

“O imóvel é um produto de longo prazo. Muitas vezes, você concebe o projeto em um cenário e, quando ele fica pronto, o mercado já mudou”, explica.

Em Bento Gonçalves, questões como relevo, mobilidade e crescimento pouco planejado ao longo das décadas exigem atenção.

“Expandir a cidade sem planejamento pode agravar problemas que já existem, como trânsito e acesso a serviços”, alerta.


Novos comportamentos e oportunidades

As mudanças sociais também impactam diretamente o perfil dos empreendimentos.

“Hoje já não existe a mesma preocupação em ter carro próprio. Isso impacta diretamente na necessidade de vagas de garagem e no tamanho dos imóveis”, explica.

Com isso, projetos mais compactos e funcionais ganham espaço, priorizando praticidade e localização.

Outro fator relevante é o crescimento do turismo, especialmente o enoturismo.

“O turismo exige estrutura, e a construção civil acompanha esse crescimento”, afirma.


Papel institucional da Ascon

A entidade atua de forma ativa na articulação com o poder público e em discussões técnicas sobre o desenvolvimento urbano.

“A gente tem uma presença ativa nesses espaços, levando a visão técnica do setor e contribuindo com o planejamento da cidade”, destaca.

Também desenvolve ações sociais e iniciativas de apoio à comunidade.


Capacitação e fortalecimento do setor

Entre as iniciativas estão missões empresariais, visitas técnicas, palestras e eventos como o Ascon Panorama e o Meeting da Construção, que reúne lideranças para discutir economia, política e mercado.

“A gente tem um calendário bastante completo, com foco em trazer conhecimento e atualização para os associados”, afirma.


Agenda estratégica e futuro

A nova gestão inicia com uma agenda intensa, incluindo a comemoração dos 30 anos da entidade e a construção de um planejamento estratégico.

“Queremos construir uma gestão sólida, com visão de futuro e participação de quem ajudou a construir a história da entidade”, afirma.


Reforma tributária e desafios

Outro tema relevante é a reforma tributária, que ainda gera dúvidas no setor.

“Existe muita incerteza sobre os impactos da reforma. É um assunto que precisa ser debatido e esclarecido”, afirma.

A Ascon pretende atuar como mediadora nesse processo, oferecendo orientação aos associados.


Compromisso com o futuro

Ao projetar os próximos anos, Giacomello reforça o compromisso com o fortalecimento da entidade e do setor.

“A Ascon tem um papel importante na sociedade, representando um setor que movimenta a economia e impacta diretamente a vida das pessoas.”

“A gente quer manter a entidade forte, evoluir e atuar onde estão os principais desafios. Esse é o compromisso da nossa gestão”, conclui.


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